Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

À SOMBRA DO CASTANHEIRO

        

     

Do Jornal “O AMIGO DO POVO" de 13 /07/3008

(Diálogo do Tio Ambrósio com o Carlos do Cabeço.)

 

- O Tio Ambrósio acha que a nossa agricultura pode sobreviver?

- Qual agricultura, Carlos? Eu penso que a este amanho que agora fazemos das terras não se pode chamar agricultura. Basta olharmos à nossa volta e ver como está quase tudo de poisio. Aqui mesmo ao lado, um olival, que em tempos dava uns quarenta ou cinquenta alqueires de azeite, agora está como tu vês. As silvas já chegam mais alto que as oliveiras. E a vinha a seguir está igualmente desprezada.

-Aqui o seu quintal é que parece um jardim!

Será por pouco tempo, Carlos! As forças vão faltando e, qualquer dia, vais ver aqui uma plantação de giestas. Tu, mai-lo teu cunhado Acácio e o Quintino é que ainda conseguis sobreviver à crise que por aí se instalou.

- Com muitas dificuldades, Tio Ambrósio! E isto, especialmente, porque nós, os agricultores, não conseguimos entender o pensamento daqueles que nos governam.

- E que sabem eles de agricultura, Carlos?

- Essa é uma boa pergunta. Tio Ambrósio! É que, por vezes, nós somos uns paus mandados, e não sabemos onde isto vai parar. Primeiro mandaram-nos arrancar as vinhas, dando até um pequeno subsídio por cada cepa, depois, passados uns anos, quando já muitos tinham plantado castanheiros de crescimento nos terrenos, vieram dizer que era necessário investir na plantação desta e daquela casta para se obter um vinho de qualidade. Depois foram as oliveiras. Num determinado momento, a palavra de ordem foi botar à abaixo, porque era necessário racionalizar a produção. De tal forma que, aqui à volta, fecharam as portas todos os lagares, menos o do Cabeço que continua em laboração, mas, ao que parece, por pouco tempo.

- Se for assim, que vamos nós comer, Carlos?

- Produtos importados, Tio Ambrósio! Essa tem sido a política dos nossos governos nestes últimos vinte ou trinta anos. Parece que quem manda nisto é a Europa, e nós obedecemos que nem cordeirinhos.

- Olha que eu ainda há pouco tempo, perante a crise de alimentos que vai pelo mundo, ouvi o Senhor doutor Mário Soares afirmar que temos que voltar a agricultar os nossos campos para não morrermos à fome.

- De vez em quando diz uma acertada, Tio Ambrósio! Mas não se esqueça que foi nos tempos em que ele era primeiro-ministro que nós começamos a obedecer a essas coisas das cotas. Bruxelas proibia-nos de produzir mais do que uns tantos milhares de toneladas de tomate…

- Eu não achei isso nada bem, Carlos!

- Pois não tio Ambrósio! Mas se nós produzíssemos tomate em abundância, como é que a França podia vender o excedente da sua produção? E o mesmo se passou com outras culturas, nomeadamente as hortícolas, as quais os nossos terrenos e o nosso clima fazem produzir com alguma facilidade…

- O mesmo se passa com a fruta…

- Tal e qual, Tio Ambrósio! Até o Sanguessuga, aqui no Cabeço, vende maçãs importadas da França e ameixas vindas de Marrocos e da Tunísia

- E as uvas vêm da África do Sul… – Tudo produtos que nós poderíamos cultivar em abundância, se houvesse orientação e planeamento.

- Hoje, parece que o problema maior é o dos cereais. Há falta deles em todo o mundo.

- Também nesse sector nós dependemos do Estrangeiro e da chamada política agrícola comum. Veja, por exemplo, o arroz quase desapareceu dos vales do Mondego e do Arunca, aqui mesmo ao lado da nossa terra. Diziam que ficava mais barato importa-lo da China e da Índia.

- E era verdade, Carlos!

- Mas agora há falta dele nos mercados internacionais, o que leva a uma louca subida de preços.

- Se calhar diz o doutor Soares, vamos ter que voltar a produzir…

- Não sei se vale a pena. Tio Ambrósio! A crise pode ser passageira e, daqui a três ou quatro anos, quando já estivermos equipados para uma produção rentável, é bem capaz de vir por aí alguma proibição, de modo que se possam esgotar os excedentes da Itália ou de qualquer outro país produtor. Os agricultores estão escaldados, Tio Ambrósio! Olhe o que se passa com o leite. É uma autêntica vergonha, lho digo eu.

- Eu não seria tão radical…

Então o Tio Ambrósio não se lembra que, aqui há uns anos atrás, fomos todos obrigados a despachar as leiteiras porque a produção era superior ao consumo! Pelo menos foi essa a explicação que nos deram. Eu, por exemplo, fiquei só com bezerros para abate e, por enquanto, não tenho tido problemas. Mas os que continuaram a produzir leite viram-se em papos de aranha. Alguns agricultores dos Açores, que têm, terrenos de grande qualidade para as pastagens de bovinos, foram admoestados por Bruxelas. Eu penso que foram mesmo obrigados a pagar uma multa por produzirem mais leite do que lhes era permitido…

-Já aqui falámos desse caso…

- E qual foi o resultado, Tio Ambrósio? Baixou a produção e o preço do leite subiu, em seis meses, quase trinta por cento. Além disso, temos agora nas nossas superfícies comerciais leite espanhol, Leite inglês, leite alemão, leite italiano…

-Falta-nos planeamento, Carlos!

- O Sanguessuga diz que isto nem com um plano lá vai. Mas, se vossemecê o diz eu faço um esforço para acreditar.

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O jornal "O Amigo do Povo"  é um semanário pequenino, e já muito antigo,  da  Comunicação Cristã aqui do centro - Coimbra, mas muito interessante, que todos os portugueses deveriam ler. Pois só diz VERDADES. Parabéns à sua Administração. C.B.S.

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publicado por canticosdabeira às 11:05
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Aos “Rosários de Amor”


Boa amiga Clarisse,
Converti-me aos seus Amores.
São lindos os versos-flores!
Chorei... Queria eu que visse...

Não sei que “frio” me toma,
Ao ler tamanha beleza...
Não é frio, com certeza,
É o amor que me assoma.

Beijadas por andorinhas,
Se fazem as suas linhas,
Com glória, honra em flor.

Solta-se o “Grito de Paz”,
E ninguém mais o desfaz
Nos ”Rosários de Amor”.

Rosa Silva (“Azoriana”)
Angra do Heroísmo
2008/04/07

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